A força transformadora da reciclagem

Vinte e cinco anos de um modelo atrelado à realidade dos desafios socioambientais, econômicos e tecnológicos brasileiros

Quem agora completa 25 anos faz parte de uma geração que nasceu no estopim do debate sobre a sustentabilidade da vida na Terra, desempenhando papel decisivo na transição para uma ordem mundial mais justa e menos predatória — seja como lideranças ou simplesmente indivíduos de uma sociedade em busca de novos hábitos e um futuro melhor.


Além de pessoas, o perfil abrange instituições, como as que protagonizam mudanças positivas olhando à frente no tempo para chegar a soluções viáveis, condizentes com as realidades locais e com os paradigmas emergentes. A cultura digital e a maior conscientização quanto aos desafios socioambientais pela sociedade desenham o ambiente para planejamento e decisões transformadoras tomadas por empresas, governos e cidadãos. Um caminho sem volta, uma evolução contínua que chega à maturidade a partir de pilares construídos nos capítulos de uma história que está longe do fim. E permanecerá sendo escrita na complexa e dinâmica perspectiva do desenvolvimento sustentável.


Chegar às bodas de prata é um valoroso marco para qualquer “compromisso”, especialmente no caso de uma instituição criada com a bandeira da união de forças e do pioneirismo para o desenvolvimento de uma atividade até então estranha ao mundo empresarial e à maioria dos brasileiros – a reciclagem de resíduos urbanos, que carrega no seu significado inquietantes conceitos: transformação, renovação, mudança de padrão e outras mensagens que conotam mobilização, engajamento e envolvimento para a melhoria da qualidade de vida, sem falar da relação direta com os parâmetros econômicos e sociais de uma economia em crescimento.


O Compromisso Empresarial para Reciclagem (CEMPRE) chega aos 25 anos na linha de frente para solução de um dos principais problemas das cidades: os resíduos. O momento global, que influencia irremediavelmente transformações no contexto nacional e local, é de adequações e virada de jogo diante de questões de amplo impacto nos modelos de produção e consumo, como o risco de escassez de recursos naturais primários e o enfrentamento das mudanças climáticas.

  • Os catadores organizados em cooperativas e associações são aliados para o aumento da reciclagem, com menor disposição de embalagens pós-consumo em aterros sanitários.

  • Com apoio das empresas, os Pontos de Entrega Voluntária (PEV) se expandem no Brasil, incentivando que o consumidor também faça a sua parte na responsabilidade pelos resíduos.

Perspectiva Digital

No cenário atual, a velocidade da informação nos meios digitais e o estilo de vida nas redes sociais tornam novos conceitos e práticas potencialmente mais acessíveis. É um turbilhão de posts sobre modos de ver as coisas e a vida. Mensagens de variados formatos, fotos, vídeos, transmissões ao vivo no celular e armazenamento em nuvem para guardar tudo. Compartilhamentos, interações: o paradigma virtual pode ser estratégico no desafio educativo de perceber e fazer conexões. De unir pontas em favor da sustentabilidade e do bem comum no presente e no futuro. Igualmente a tudo que envolve “comportamento”, “consciência” e “cultura”, a reciclagem e a gestão dos resíduos urbanos povoam a complexidade cotidiana e seus modelos mentais. E como demanda básica para a qualidade de vida nas cidades, o modo de lidar com o consumo e o lixo gerado por ele se reflete cada vez mais nos negócios e forma um ecossistema de componentes ambientais, sociais, econômicos e políticos que se fortalece, compartilhando responsabilidades — quadro que começou a ser modelado, com envolvimento efetivo da iniciativa privada há um quarto de século.


No rastro do desenvolvimento sustentável

Rio de Janeiro, 12 de março de 1992. Na sala de um hotel na Praia de Copacabana, um grupo de 25 executivos de empresas de grande porte dava um passo estratégico ao criar o CEMPRE, marco que resultou no inédito engajamento empresarial para um tema antes relegado a plano periférico. A promoção da reciclagem como atividade econômica fez o lixo urbano ganhar status como fonte de matéria-prima industrial: vidros, papéis, metais, plásticos, cuja riqueza começava a ser descoberta. Recuperados após o uso, sem o despejo em aterros ou lixões com impacto nocivo à saúde e ao meio ambiente, os resíduos ganharam valor — inclusive como diferencial competitivo das empresas e fonte de renda para toda a cadeia produtiva que coleta e processa os materiais como insumo de novas embalagens e outros produtos.


O desafio ganhou voz diante do intenso debate ambiental travado antes, durante e depois da emblemática Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), realizada naquele ano, no Rio de Janeiro, com expressiva mobilização da sociedade civil. Acirrava-se o embate entre os países ricos e os que almejavam prosperidade econômica. Como pano de fundo estava a discussão sobre os recursos do planeta e os limites do progresso. Ganhava impulso o conceito de “desenvolvimento sustentável”, cunhado na década de 1980 como alerta para a redução de impactos ambientais negativos e garantia de recursos vitais às gerações futuras. A ecologia se aproximava da economia e do combate à pobreza, diante de um cenário de desigualdade social, preocupante já naquela época. No início da década de 1990, a parte industrializada do planeta, que abrigava apenas 20% da população, consumia oito em cada 10 toneladas de alimentos e sete em cada 10 quilowatts de toda a energia gerada.


Desde o berço, o CEMPRE tratou a reciclagem como atividade institucionalmente organizada e pautada por critérios técnicos e de gestão. Gerir de forma integrada os resíduos urbanos tornou-se ponto importante da agenda das Nações Unidas para a conciliação entre o desenvolvimento econômico e a conservação do meio ambiente. Desta forma, naquela memorável atmosfera de 25 anos atrás, propícia ao diálogo e ao engajamento no contexto da Rio 92, o meio empresarial, representado pelo CEMPRE, assumiu de maneira proativa a condição de co-responsável por soluções contra o problema do lixo. E passou a coordenar ações e energias conjuntas para a contínua construção do modelo brasileiro de reciclagem, condizente com a realidade do País, com viés social e viabilidade técnico-econômica.

  • Nasce em São Paulo a Coopamare, a primeira cooperativa de catadores do País.

  • É criado o CEMPRE no ano em que foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), no Rio de Janeiro.

  • The Global Alliance for Recycling and Sustainable Development é fundada pelo CEMPRE.

  • Aprovada a lei que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), com participação proativa das empresas.

  • É instituída a Coalizão Embalagens, engajando diversas organizações empresariais para o cumprimento da lei de resíduos.

  • CEMPRE se torna referência global em resíduos sólidos, com participação em eventos internacionais.

  • Modelo brasileiro de reciclagem com inclusão social e ambiental dos catadores é apresentado na 69ª Assembleia Geral da ONU.

  • Assinado com o governo federal o Acordo Setorial para a logística reversa de embalagens.

  • Conclusão da Fase 1 do Acordo Setorial de Embalagens em Geral.

Participação ativa na lei de resíduos

Referência nacional a partir do conhecimento e aprendizado acumulados no tema, o CEMPRE participou ativamente da elaboração do principal marco legal regulador da atividade: a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Aprovada após quase duas décadas de debate no Congresso Nacional com a contribuição da sociedade civil, a Lei 12.305/10 é considerada um histórico divisor de águas para a efetiva mudança do cenário dos resíduos urbanos no Brasil, lançando novos desafios para empresas, poder público, catadores e população, dentro do princípio da “responsabilidade compartilhada”.


A partir de uma abordagem moderna, a legislação estabeleceu regras para impulsionar o retorno dos resíduos às indústrias após o consumo dos produtos e obrigou os governos das três esferas a realizar planos para o gerenciamento do lixo. Entre as novidades, a lei consagrou a força social da reciclagem, a ser desenvolvida no País com participação ampla e formal dos catadores de materiais recicláveis organizados em cooperativas. Além disso, ordenou o fim dos lixões e definiu que para os aterros sanitários devem ser destinados apenas os rejeitos – aquilo que não pode ser reciclado a partir do lixo.


Coalizão Embalagens: engajando empresas para o aumento da reciclagem

Aprovada a lei, uma representativa parcela do meio empresarial se articulou, no âmbito do CEMPRE, para colocá-la em prática e realizar a sua parte no compromisso pela gestão dos resíduos. Na realidade, com o aval do marco regulatório, consolidava-se o modelo de reciclagem já em desenvolvimento no País a partir das ações empreendidas pela instituição desde o seu nascimento, há 25 anos. Entre os novos desafios estava a oficialização de uma proposta para a implantação da logística reversa das embalagens em geral, conforme previu a lei, mediante Acordo Setorial firmado junto ao governo federal.


O conceito de logística reversa — o sistema de coleta e retorno dos resíduos recicláveis como matéria-prima à fabricação de novos produtos — começou a se disseminar com maior ênfase no mercado. Coube ao CEMPRE mobilizar os diferentes setores empresariais, da indústria ao comércio atacadista e varejo, para constituir um engajamento coletivo: a Coalizão Embalagens. O objetivo foi somar estratégias e investimentos de modo a viabilizar a proposta de um sistema de logística reversa adequado à realidade do País, com ações e metas para incremento da reciclagem com inclusão social e geração de renda para toda a cadeia produtiva — desde o catador que faz a coleta e a triagem dos materiais até a indústria recicladora que os processa para voltar às prateleiras na forma de novos produtos.


Aprovado pelo governo após consultas públicas, o modelo prevê aumentar em 22% a reciclagem de embalagens pós-consumo até o final de 2017, quando deverá ser finalizada a Fase 1 do Acordo Setorial, abrangendo doze capitais brasileiras e suas regiões metropolitanas, conforme estabelecido no edital lançado em 2012 pelo Ministério do Meio Ambiente. A estratégia empresarial para atingir a meta está centrada no apoio à infraestrutura, capacitação e gestão das cooperativas de catadores para o aumento da produção, instalação de PEV (Pontos de Entrega Voluntária) para o recebimento de resíduos levados por consumidores e garantia de compra dos materiais recicláveis a preço de mercado.


Conforme o 1º Relatório de Desempenho do Sistema de Logística Reversa de Embalagens em Geral, concluído preliminarmente em janeiro de 2017, os resultados do primeiro ano de ações tornam reais os objetivos de aumento da reciclagem dentro das metas compactuadas no acordo. No total, 702 cooperativas receberam apoio para melhoria produtiva entre 2012 e 2016, período em que foram instalados 2.103 PEV. As iniciativas empresariais abrangeram 422 municípios, somando 51% da população brasileira.


A Coalizão Embalagens é formada por 28 associações do setor empresarial engajadas na implementação da PNRS — número que tende a crescer com o envolvimento de organizações que ainda não se adequaram à lei e deverão ser compelidas a isso de modo que o sistema de logística reversa receba os investimentos necessários e alcance as metas. Busca-se também maior engajamento do poder público nas soluções para os resíduos e a formalização do fluxo da logística. Hoje, o índice médio de reciclagem de embalagens no Brasil é de 65%. No total, o mercado de coleta e reprocessamento industrial de materiais recicláveis movimenta em torno de R$ 12 bilhões ao ano, no Brasil. “Ao dar continuidade às ações que incentivam a responsabilidade compartilhada entre governo, empresas e população, estamos no caminho certo para promover a destinação adequada das embalagens pós-consumo no Brasil”, afirma Victor Bicca, presidente do CEMPRE.

  • Os materiais separados nas residências chegam à Coop-Reciclável, em Guarulhos (SP), para ganhar novas finalidades nas indústrias.

  • Nas cooperativas de catadores, as garrafas plásticas são prensadas e depois transformadas em fardos para fornecimento às indústrias que transformarão o material em novos produtos.

Municípios precisam se adaptar

Os números indicam avanços na gestão de resíduos após a nova legislação e o potencial de evolução da reciclagem, cenário em que o CEMPRE se destaca como referência para novos passos estratégicos. Após a repercussão da lei, a valorização dos materiais recicláveis vem conquistando cada dia mais reconhecimento na busca por soluções para a geração de resíduos e melhoria da qualidade de vida nas cidades.


A quantidade de municípios que opera algum tipo de coleta seletiva para a reciclagem do lixo urbano mais que duplicou entre 2010 e 2016, segundo dados da Pesquisa Ciclosoft, publicada a cada dois anos pelo CEMPRE como termômetro do setor e subsídio para novas decisões e ações. Diante da demanda legal, o aumento é tímido, mas indica uma tendência de mudanças positivas. A obrigatoriedade de banir os lixões mobiliza projetos em cidades e estados de relevância econômica, como São Paulo, que se antecipa em anunciar investimentos para erradicar as áreas de destinação irregular de resíduos, criando cenário propício para que a lei seja mais amplamente cumprida.


Pesquisas indicam que a cada R$ 1 investido em saneamento adequado, incluindo a coleta seletiva de resíduos, economizam-se R$ 4 em serviços de saúde. A isso se soma a demanda da inclusão social, da conservação de recursos naturais e do desenvolvimento econômico do País.


No atual ambiente regulatório, os municípios são obrigados a tratar os resíduos de forma mais criteriosa e responsável. A Constituição Federal é clara ao atribuir a eles a responsabilidade pela limpeza urbana, e agora a PNRS confere uma base mais sólida, com princípios e diretrizes para o poder público municipal fazer a sua parte no sentido de mudar o panorama do lixo no Brasil. Entre prioridades estabelecidas na lei está a parceria comercial com cooperativas de catadores como agentes formais do serviço público de limpeza.


Dentro do princípio da “responsabilidade compartilhada”, em que as empresas e os cidadãos também devem buscar soluções, o desafio que recai sobre os municípios se enquadra dentro de um novo conceito: o gerenciamento integrado do lixo, envolvendo diferentes estratégias, como a reciclagem e a disposição dos rejeitos em aterros que seguem critérios ambientais. As cidades devem implantar a coleta seletiva de lixo reciclável nas residências, além de sistemas de compostagem para resíduos orgânicos, o que reduz a quantidade levada para aterros, com benefícios ambientais e econômicos. Ao longo de seus 25 anos, o CEMPRE construiu expressivo acervo de conhecimento técnico sobre a gestão de resíduos urbanos, disponível aos gestores municipais como subsídio a novos investimentos necessários ao cumprimento da lei.


municípios com coleta
seletiva no brasil

Fonte: Ciclosoft, 2016

gravimetria da coleta
de resíduos

Fonte: Relatório Técnico/Acordo Setorial de Embalagens em Geral, 2017

População absorve novos conceitos

Além da adesão dos gestores públicos à PNRS, da busca por sustentabilidade financeira dos serviços e das ações empresariais para a logística reversa dos materiais pós-consumo, outro fator se apresenta igualmente indispensável: o engajamento da população na solução dos problemas de limpeza urbana.


Desde o início da história do CEMPRE, a questão deixou de ser restrita a ambientalistas como no passado e se disseminou no tecido social, impulsionada pela maior escala de campanhas e trabalhos de educação ambiental, bem como pela capilaridade das iniciativas empresariais. É inegável que o nível de conscientização tem aumentado, porém o tamanho do desafio exige a multiplicação de novos esforços, principalmente quando se considera as diferentes realidades socioeconômicas e culturais brasileiras.


Tratado como matéria-prima, e não como algo nocivo a ser enterrado, o lixo ganha valor e sua gestão — tanto no dia a dia das empresas como das residências — tem o potencial de promover hábitos para uma vida mais saudável. O termo “reciclar” tornou-se popular, juntamente a verbos como “reduzir”, “reaproveitar”. Para além do ganho ambiental e econômico, ao longo dos últimos 25 anos a vida urbana passou a conviver gradativamente com um novo conceito: o de “consumo consciente”. Nesse cenário, a separação dos resíduos nas residências, a maior atenção do consumidor quanto às práticas empresariais associadas à reciclagem dos produtos e a cobrança cidadã por melhorias no serviço de coleta seletiva realizado pelas prefeituras tornaram-se elementos-chave para o avanço da atividade no País.


A parceria entre indústria e varejo, desenvolvida pelo CEMPRE ao longo de sua história, tem estimulado a prática da reciclagem, disponibilizando número cada vez maior de estações de coleta para entrega dos resíduos separados na residências. “Os PEV permitem o contato direto com o consumidor para a consciência de que resíduo não separado é dinheiro jogado fora”, ressalta Paulo Pompilio, diretor do Pão de Açúcar e presidente do Conselho de Administração do CEMPRE.