Essenciais na gestão dos resíduos

Formalizados em cooperativas, catadores conquistam renda, cidadania e maior valorização pela sociedade

Cena 1: A carioca Claudete Costa, catadora de materiais recicláveis desde os 11 anos, depois que a mãe migrou para a capital em fuga da violência doméstica, encontrou no ofício uma nova vida. E isso não se deve apenas ao fato de ter escapado da Chacina da Candelária, em 1993, porque foi buscar latinhas em outro local naquela noite do massacre de moradores de rua pela polícia. Hoje presidente da cooperativa Ecoponto, no bairro de Honório Gurgel, Claudete se divide entre as tarefas no galpão de triagem e os compromissos como liderança do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) na capital carioca. Ter integrado o time de cooperativas que reciclou os resíduos dos Jogos Olímpicos, com apoio da Coca-Cola, significou uma grande conquista para quem aprendeu a viver nas ruas, ao lado da mãe, que vendia rosas e velas na frente de uma igreja: “fui pedinte, virei camelô, catadora, e agora recicladora”.


Cena 2: Quando menino, o potiguar Severino Lima vendia picolé para os catadores no antigo lixão de Natal, no Rio Grande do Norte, até constatar que ganharia mais garimpando resíduos junto com eles. Quando a prefeitura decidiu interditar a área, o rapaz liderou uma mobilização para garantir o sustento dos que lá trabalhavam. Perdeu a vergonha de dizer que vivia do lixo – ou melhor, da reciclagem. Frequentou reuniões no Ministério Público e estruturou uma associação local, tornando-se mais tarde um dos idealizadores do MNCR, criado em 2001. Severino participou ativamente dos debates em torno da Política Nacional de Resíduos Sólidos e, ao longo dos anos, contribuiu para mudar a realidade do lixo em sua cidade. Os catadores se tornaram mais valorizados. Hoje, Severino está habituado a negociar com empresas e com o alto escalão do governo, além das viagens para encontros com organizações de catadores no exterior: “ninguém acreditava que chegássemos a esse ponto”.


Claudete e Severino protagonizam um enredo que ganhou corpo ao longo das últimas décadas a partir de políticas sociais de governo associadas à estruturação da reciclagem de resíduos no País, com apoio empresarial por intermédio do CEMPRE. Os dois personagens ilustram o novo perfil dos catadores – antes estigmatizados pela sociedade, hoje reconhecidos e apoiados pelo valor ambiental da atividade, uma das mais antigas da cena urbana. Os coletores conquistaram apoio de governo e empresas como aliados estratégicos nas soluções para o lixo das cidades e se fortaleceram para evoluir na superação de barreiras, como a busca por maior formalização e inserção da economia. Das tradicionais carrocinhas aos modernos caminhões de coleta, o trabalho dos catadores organizados em cooperativas ganha outra dimensão. Equipadas e capacitadas para a gestão produtiva e comercial, elas alcançam escala para o País elevar os índices de reciclagem, com o respaldo da lei.


  • As mulheres compõem mais de 70% da força de trabalho nas cooperativas de catadores. Na triagem, elas processam os resíduos separados pela população nas residências.

  • Na esteira de triagem, os materiais são separados de maneira mais refinada conforme as diferentes categorias para fornecimento às indústrias recicladoras.

  • Em Guarulhos (SP), os catadores e catadoras participam do serviço municipal de coleta seletiva nas residências: exemplo de como a lei de resíduos está sendo colocada em prática.

  • O apoio das empresas à capacitação, infraestrutura e gestão das cooperativas é estratégico para a maior geração de renda em toda a cadeia da reciclagem.

  • Com maior estrutura e capacitação, cooperativas são capazes de aumentar a produção e a escala da reciclagem no País, com reflexos positivos na renda dos que trabalham na atividade.

  • As ações conjuntas de empresas, governo e cidadãos, conforme prevê a legislação, podem virar uma nova página na realidade brasileira dos resíduos urbanos.

Ao reforçar o aspecto social, a legislação de resíduos aprovada em 2010 prioriza a participação dos catadores nos serviços de coleta e triagem a partir da responsabilidade compartilhada entre governo, empresas e população. O Decreto Federal 7.404, que definiu como a lei será implementada, prevê parcerias, incentivos financeiros, capacitação e melhoria da produção e das condições de trabalho das cooperativas. As regras seguem o modelo que há 25 anos o CEMPRE ajuda a consolidar, com reflexos nas ações das empresas para a logística reversa das embalagens.


Dessa forma, entre 2012 e 2016, a Coalizão Embalagens apoiou 702 organizações de catadores com mais de 3 mil iniciativas voltadas à capacitação, gestão e estruturação nas diversas regiões brasileiras. Para aumentar a coleta e atingir as metas de reciclagem estabelecidas pelo acordo entre empresas e governo, o compromisso é triplicar a produção das cooperativas das doze capitais que integram a primeira fase do plano – e há grande espaço para aumento da eficiência. O estudo de viabilidade econômico-financeira do modelo aponta: expandindo a triagem e a venda direta aos recicladores, a renda média por catador tende a crescer de 33% a 101%, dependendo dos preços da sucata obtidos pelas cooperativas.


A história do CEMPRE coincide com os avanços da organização e padrão de trabalho dos catadores. Eles são responsáveis por coletar 96,2% dos resíduos hoje reciclados no Brasil, importância que cresce juntamente com o potencial de aumento dos índices de reciclagem via expansão da coleta seletiva municipal e esforços para redução da informalidade, com efetiva inserção deles na cadeia produtiva.


Há muito por fazer. Em média, cada brasileiro descarta um quilo de resíduo por dia: no total, 200 mil toneladas diariamente, metade ainda destinada a aterros ou lixões, com desperdício de recursos naturais, custos e impactos ambientais. Mudanças no quadro poderão ser reais à medida do maior engajamento para colocar a lei de resíduos em prática, com gestão mais eficiente do lixo pelos municípios e o contínuo apoio empresarial à produção das cooperativas, dentro da “responsabilidade compartilhada”, em que a solução deve partir de todos.


O cenário pós-lei tem induzido novos arranjos. Além da triagem dos resíduos para envio às recicladoras, as cooperativas de catadores atuam também na coleta seletiva. Em algumas cidades, o serviço porta a porta é realizado pelas cooperativas de catadores mediante diferentes modelos de parceria com as prefeituras. Na Vila Nossa Senhora de Fátima, em Guarulhos (SP), a música tocada pelo caminhão todas as manhãs de quinta-feira desperta os moradores logo cedo para a chegada da coleta seletiva. “O novo hábito diminuiu muito o lixo no córrego”, diz Ana Gilza de Souza, moradora de uma rua sem saída onde no passado o serviço de limpeza não chegava. “Reciclar é um ato de cidadania”, completa o vizinho, Wagner Valdo.


Ao seu lado, a catadora Jéssica Gomes orgulha-se: “jamais imaginei trabalhar com reciclagem, mas mudei de visão quando descobri o seu grande valor”. Ela e as demais coletoras criaram uma relação de respeito com os moradores, que hoje entendem a importância ambiental e social daquele trabalho — e não raro as recebem com cafezinho e até pizza. No grupo está a catadora haitiana Mirlene Desir, refugiada no Brasil há oito meses para tentar maior sorte na vida, recebendo R$ 700 mensais na cooperativa: “quero juntar dinheiro para trazer minha filha”. Em Guarulhos, os resíduos de oito bairros são levados para a Coop-Reciclável para triagem e transformação em fardos destinados às indústrias recicladoras. No total, são processadas de 80 a 100 toneladas mensais com renda dividida entre os cooperados. “Com a maior conscientização, aumentou bastante o interesse pelo trabalho com reciclagem”, atesta o diretor-administrativo da cooperativa, Francisco Pinheiro.


Modelo se fortalece e serve de exemplo para o mundo

Ao longo de seus 25 anos, o CEMPRE tem trabalhado para desenvolver a sinergia da cadeia da reciclagem e aproximar empresas, municípios e catadores para a melhor gestão do lixo. A lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos consagrou o modelo, no qual melhoria das condições de trabalho, geração de renda e capacitação produtiva para fornecimento de resíduo como matéria-prima às indústrias são grandes desafios.


Além da maior valorização e visibilidade dentro do País, a tecnologia social da reciclagem baseada na força das cooperativas de catadores despertou a atenção de diversos países em desenvolvimento, como Colômbia, Tailândia e África do Sul. Nos últimos anos, o CEMPRE tem estabelecido parcerias que resultaram na internacionalização do modelo brasileiro, tema de frequente interesse em encontros globais do qual a instituição tem participado, como as conferências de clima da ONU de Cancún, Paris e Marrakesh.


“A projeção internacional é fruto de um modelo que se ajusta aos países em desenvolvimento pelo caráter do Triple Bottom Line, somando aspectos econômicos, sociais e ambientais que promovem o equilíbrio entre conservação ambiental, sustentabilidade econômica e erradicação da pobreza”, ressalta André Vilhena, diretor executivo do CEMPRE.


Ao longo de 25 anos, o CEMPRE construiu a base do sistema de reciclagem endossado pelo governo

Da prateleira dos supermercados ao retorno das embalagens às indústrias após o consumo pela população, o compromisso para o avanço da reciclagem deve ser compartilhado por todos os elos da cadeia. Dessa forma, o funcionamento do sistema de logística reversa está sustentado pelo papel que cada setor desempenha ao longo do ciclo de vida dos produtos.