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Atenções voltadas para os plásticos
Em 1907, o belga Leo Baekeland inventou o primeiro plástico sintético, impermeável, isolante e resistente a ácidos. Desde então, as evoluções não pararam mais e esse material está presente no dia-a-dia de bilhões de
pessoas em todo o mundo, sob as mais diversas formas. Com a urgência de reduzir o uso de petróleo, fabricantes
e centros de pesquisa vêm se empenhando no estudo de fontes renováveis. Outra novidade é o plástico com
aditivos oxidegradantes. À medida que as soluções saem dos laboratórios, é fundamental compreender quais são
as propostas, suas possíveis aplicações e as vantagens que oferecem, ou não, em termos ambientais. O panorama
a seguir apresenta os movimentos do setor e as direções em que caminham.
AS DUAS ALTERNATIVAS MAIS EM VOGA
Eloísa Garcia, gerente de Embalagens Plásticas e Meio Ambiente do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea/ITAL), explica
os dois tipos mais discutidos hoje:
BIOPOLÍMEROS
São polímeros produzidos a partir de matérias-primas de fontes renováveis como celulose, milho, quitina, soro de leite e cana-de-açúcar. Há muito tempo, são pesquisados nas universidades brasileiras em estudos que visam aprimorar as propriedades desses
materiais para permitir seu processamento (extrusão de filmes, extrusão e sopro de garrafas e injeção de peças, entre outros),
ajustar seu desempenho mecânico (avaliações de rigidez, tração, impacto etc.) frente às aplicações pretendidas, assegurar
harmonia com os produtos com os quais estão em contato (como resistência à umidade e à gordura) e, no caso de embalagens,
proteger os itens acondicionados (barreira a oxigênio, vapor d’água etc.). Alguns biopolímeros estão sendo criados para utilização
em implantes e outros itens médico-hospitalares com o intuito de serem, com o tempo, absorvidos pelo organismo.
Seu ciclo de vida pressupõe que o recurso natural de origem seja restaurado pela natureza em pouco tempo. O biopolímero
extraído da cana-de-açúcar, por exemplo, deve ser usado, reciclado o máximo possível e, ao final de sua vida útil, deve gerar
gás carbônico (tanto na compostagem, a partir da ação de microrganismos, quanto na incineração com recuperação de energia).
Essa substância será absorvida por um outro pé de cana-de-açúcar, repondo o recurso natural que, ao final de seu crescimento,
originará de novo o biopolímero. No entanto, se for destinado a aterros, o processo possui deficiência de oxigênio e a
metade do carbono presente no polímero se transformará em gás metano (tem potencial de efeito estufa 23 vezes maior do
que o gás carbônico). Em outras palavras, ele não será absorvido pelas plantas e seu ciclo de vida não se fechará.
PLÁSTICOS COM ADITIVOS OXIDEGRADANTES
São plásticos tradicionais, produzidos a partir de fonte não-renovável, que são acrescidos de aditivos que causam a fragmentação
do material. O filme plástico se degrada por ação do oxigênio e da luz (oxidegradação), mas pode levar muitos anos
para que as partículas remanescentes do plástico sejam incorporadas ao solo com a metabolização por microrganismos que
resultaria em biomassa, gás carbônico e água (biodegradação).
Como não são compostáveis, esta metabolização só é provável
de ocorrer com o plástico disperso no meio ambiente.
Como não é possível esquecer a lei básica de que "na natureza nada se perde, tudo se transforma", os passivos para o meio
ambiente são uma grande quantidade de partículas de plástico fragmentado, além de aditivos, corantes, cargas, pigmentos e
outros componentes da embalagem. Descartar esse material em aterros ou lixões significa desperdiçar potencial de reciclagem
mecânica ou de aproveitamento energético, contribuindo ainda mais para o aquecimento global.
A INDÚSTRIA SE MOVIMENTA
Apostar em fontes alternativas ao petróleo significa se preparar para o futuro. Por isso, os biopolímeros vêm despertando a atenção
do mercado e podem trazer ganhos de resultado no curto/médio prazo. O Brasil está desenvolvendo tecnologias de reciclagem,
demonstração e comprovação de que os impactos ambientais associados ao ciclo de vida (produção, transformação, uso e disposição
final) desse produto são controlados.
De acordo com o Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos (Plastivida), o que não pode ocorrer são leis que se baseiam em conceitos
errados para promover um ou outro material como sendo o de melhor desempenho ambiental. "Proposições desse tipo eliminam
a ampliação da consciência ambiental e da estrutura de coleta seletiva e saneamento básico e transferem para o meio ambiente
o papel de degradar as sacolas plásticas que se transformariam teoricamente em húmus e gás carbônico", comenta Sílvia Rolim,
assessora técnica da Plastivida. "Sabe-se que, atualmente, 60% dos resíduos sólidos urbanos (restos de varrição e comida) são naturalmente
biodegradáveis e aproximadamente 1% se destina a adubo orgânico. É uma impropriedade adicionar ao plástico a função orgânica, uma vez que o país carece de usinas de compostagem. A fonte do plástico pode ser alternativa, mas a economia ambiental
real está no seu reaproveitamento como matéria-prima para novo produto, com a reciclagem mecânica, e/ou na recuperação
da energia nele contida por meio de processos térmicos, com a reciclagem energética", acrescenta Sílvia.
A questão se complica ainda mais quando a legislação se refere aos plásticos com aditivos oxidegradantes que vêm despertando
o interesse de várias empresas. "Estamos falando em derrubar nossos índices de reciclagem de plástico pela substituição de uma
tecnologia que pode gerar passivos ambientais: particulados de plástico nos lençóis freáticos e rios e ainda outros componentes das
embalagens como os aditivos. O indicado ao estabelecimento que quiser fazer a sua parte é continuar apostando na educação ambiental.
ou seja, fornecer sacolas plásticas que possam ser reutilizadas, informar o consumidor que o plástico deve ser descartado
em local apropriado e estimular a reciclagem", conclui Sílvia.
Detentora do bioplástico PHB (Biocycle®), desenvolvido a partir da sacarose da cana-de-açúcar e 100% nacional, a PHB Industrial
ressalta as vantagens de seu produto: ser compostável, biodegradável e feito totalmente a partir de fontes renováveis. "Descartado
em ambientes que apresentem atividades
bacteriológicas e umidade, o PHB se transforma
em água e gás carbônico que é resgatado na
produção do biopolímero, ou seja, no cultivo e
transformação do açúcar e dos outros elementos
(vapor, água e solvente). Por outro lado, é
um produto que pode ser reciclado ou até
mesmo incinerado para recuperação energética",
explica Sylvio Ortega Filho,diretor executivo
da PHB Industrial. A empresa mantém parcerias
com institutos de pesquisa, universidades
e empresas para testar as diversas aplicações
do PHB (embalagens de cosméticos e iogurtes,
peças automotivas, espumas, fibras
para tecidos, cartões de crédito etc).Tem capacidade
para fabricar de 50 a 60 toneladas por
ano e conta com certificação internacional. "Na falta de normas nacionais, o nivelamento
deve ser internacional para deixar transparente
aos usuários as condições do produto", defende
Sylvio.
A Braskem, petroquímica brasileira, anunciou
em junho a produção do primeiro polietileno
a partir do etanol de cana-de-açúcar nãobiodegradável,
porém 100% reciclável. "Como
praticamente não existem unidades de compostagem
no Brasil, a degradação de um plástico
biodegradável em aterros sanitários ocorreria
muito lentamente e levaria à emissão de
gás metano. Mas ele pode ser reciclado e utilizado
opcionalmente para a geração de energia
por incineração devido ao seu teor energético
tão elevado quanto o do óleo diesel. Outra
facilidade é que não é necessário qualquer investimento
ou ajuste para adaptar as máquinas
que processam polietileno", garante Antonio
Morschbacker, responsável por Inovação e Tecnologia.
Esse polímero verde – polietileno de
alta densidade que pode ser utilizado na indústria
automobilística, de embalagens alimentícias,
cosméticos e artigos de higiene pessoal –
está em fase de detalhamento técnico e deve
começar a ser produzido no final de 2009.
SOMENTE A VERDADE
Acompanhe a realidade de alguns fatos muitas vezes
divulgados de maneira equivocada:
Falso O uso de materiais biodegradáveis é uma solução para o resíduo sólido
urbano.
Verdadeiro
No caso de resíduo sólido domiciliar (embalagens, sacolas plásticas,
restos de alimentos, óleo de cozinha etc.), a redução, a reutilização, a reciclagem
mecânica, a revalorização energética e a compostagem são as melhores opções.
Falso
A biodegradação de materiais de fonte renovável é fundamental.
Verdadeiro
O desenvolvimento de materiais de fonte renovável é importante para
o Brasil devido ao potencial agrícola e à matriz energética renovável, mas não deve
engrossar a lista de materiais a serem destinados à compostagem, muito menos
precisam se degradar no meio ambiente ou em aterros ou lixões.
Falso
Materiais plásticos oxidegradáveis podem ser jogados no meio ambiente,
pois o resíduo desaparecerá.
Verdadeiro
Os resíduos degradáveis também requerem coleta e local adequado
para disposição final. Levam meses e anos para se degradar, liberam partículas(aditivos,
resíduos de tintas, pigmentos etc.) que podem afetar o meio ambiente, poluem
visualmente, prejudicam a conscientização ambiental e não eximem o consumidor,
o poder público e a indústria de suas obrigações.
Falso
Materiais plásticos inertes não-degradáveis constituem um problema
na gestão de resíduos sólidos pós-consumo.
Verdadeiro
Materiais inertes não-degradáveis oferecem menor risco ao meio ambiente,
facilitam e permitem o aproveitamento do resíduo por meio de reciclagem
mecânica e/ou energética. O caminho para uma gestão sustentável é: educação
ambiental, consumo sustentável, separação para reciclagem, destinação correta dos
materiais no pós-consumo e gerenciamento integrado de resíduos.
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