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Os maiores consumidores começam a dar o exemplo
O governo é um dos grandes consumidores de recursos naturais,
bens e serviços e, por isso, tem um papel estratégico na revisão
dos padrões de produção e consumo, apoiados no tripé atividade
econômica, meio ambiente e bem-estar da sociedade. Dessa forma,
seus contratos de investimentos, compras e serviços devem incluir
critérios que, além de atender a aspectos técnicos específicos, preservem
o meio ambiente e desenvolvam o mercado com tecnologias
mais eficientes, menor consumo de matéria-prima e reciclagem das
emissões dos processos produtivos.
Japão, Canadá, Nova Zelândia, Estados Unidos e países da
Comunidade Européia já operam com essa postura administrativa.
No Brasil, estão sendo dados os primeiros passos nesse
sentido – entre eles, está o projeto de lei 7.709/2007, do poder
executivo, que reformula a legislação
de licitações e contratos
(Lei 8.666/1993). O substitutivo
apresentado pelo deputado
e também relator do projeto
Márcio Reinaldo Moreira, do PPMG,
foi aprovado no dia 2 de maio e aguarda a votação no Senado.
Na entrevista que segue, Patrícia Grazinoli, coordenadora
da Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P), do Ministério
do Meio Ambiente, comenta a importância dos critérios ambientais
nas compras públicas. Confira também os quadros
sobre a incorporação dessa prática em dois cases de grande
destaque no cenário nacional.
O que é licitação sustentável?
É a inclusão de critérios ambientais nas compras e contratações de serviços dentro das chamadas licitações públicas. O objetivoé transformar esses contratos administrativos em instrumento para prevenir qualquer dano ambiental e interferir na cadeia produtiva de
forma positiva.
Como são esses critérios ambientais?
Os critérios ambientais orientam-se pelo uso racional dos recursos naturais, incluindo redução, reutilização e reciclagem.Tudo o que
o governo consome em grande quantidade tem de seguir essa orientação. No caso do papel, por exemplo, essa postura pode incluir
a substituição do branco pelo reciclável, a orientação dos funcionários a utilizar os dois lados da folha
e destinar o descarte para reciclagem. Há uma série de iniciativas já implementadas em municípios (a lista completa pode ser acessada
no endereço: www.mma.gov.br),
estados e por todo o país: frotas de carros oficiais movidos a álcool, alimentos orgânicos nas
merendas escolares, madeira de reflorestamento nas construções civis, uso de aparelhos de arcondicionado
mais eficientes.
Os contratos atuais têm critérios ambientais?
O que deve ser feito para aumentar a abrangência dessas práticas?
Os critérios de eficiência – como torneiras com temporizador e lâmpadas de luz branca - estão presentes. Em geral, as experiências
começam localmente, crescem regionalmente e tomam abrangência nacional. Nossa equipe do Ministério do Meio Ambiente se
encarrega de disseminar a informação. Lutamos e queremos realizar um trabalho com o Ministério do Planejamento e os órgãos
de controle para operacionalizar essas questões de maneira mais institucional no governo. Isso poderá ser um grande incentivo,
pois muitos gestores só pensam em comprar mais barato e essa não é sempre a melhor alternativa. A lei precisa prever práticas
mais objetivas de preservação ambiental.
Quais as vantagens de inserir os critérios ambientais nas licitações públicas?
Estaríamos incentivando a preservação dos recursos naturais. Também mexeríamos no mercado indiretamente. À medida que
compramos um determinado tipo de papel, transformamos esse setor. Se a administração pública, gradativamente, até mesmo porque
o mercado brasileiro não está preparado, passar a exigir os critérios de sustentabilidade em seus contratos, automaticamente, vai
melhorar as negociações desses produtos e eles poderão ser barateados. E mais: nos compromissos com prestadoras de serviços,
poderíamos incentivar a educação ambiental, exigindo capacitação periódica.
E os ganhos sob o ponto de vista de compras?
Além de favorecer o meio ambiente, o órgão ganha financeiramente com a economia de recursos financeiros, utilizando equipamentos
e instalações mais eficientes. Os nossos parceiros da A3P já compram torneiras que economizam água, aparelhos de ar-condicionado
com menor consumo de energia, papel reciclado, impressoras modo duplex etc. e estão descobrindo a construção sustentável.
Qual o movimento esperado por parte das indústrias e empresas prestadoras de serviço?
O governo começa a indicar uma nova forma de contratação, tendo um grande poder multiplicador e indutor para novos mercados, que
irão aos poucos se adaptando a essa nova postura do poder público.
A experiência do governo do estado de São Paulo |
Raio-X: 25 secretarias de governo, fundações, autarquias, empresas públicas e de economia mista, 700 mil funcionários, US$ 45 bilhões
de orçamento para 2007
Início dos estudos para licitação sustentável: 2004
Como funciona na prática: As compras são feitas de forma descentralizada por meio de cerca de 1.800 unidades compradoras. No Sistema
Bolsa Eletrônica de Compras e Pregão, são encontradas descrições detalhadas de materiais e serviços. Em meio a essas informações,
está o desempenho do produto em pelo menos um dos critérios socioambientais (sinalizado pelo Selo Socioambiental): consumo de água
e energia, emissão de poluição, geração de resíduos, toxicidade nos bens e insumos, durabilidade, fomento a políticas sociais e valorização
da transparência na gestão. Foi desenvolvido também um curso à distância de Licitações Sustentáveis para capacitação de 4 mil servidores.
Próximas etapas: Fortalecer institucionalmente o processo, desenvolver um sistema de capacitação para os fornecedores, estimular e dar
suporte à criação e à implantação de programas de compras públicas sustentáveis nas empresas de economia mista e fundações do estado.
Mais informações: www.pregao.sp.gov.br www.cadterc.sp.gov.br www.cqgp.sp.gov.br
A experiência da prefeitura de São Paulo |
Raio-X: 31 subprefeituras, 18 secretarias, 6 empresas e 8 autarquias, 165 mil funcionários e R$ 21,3 bilhões de orçamento para 2007
Início das ações rumo à licitação sustentável: 2002
Como funciona na prática: Leis, projetos de leis, decretos, ordens internas e portarias vêm inserindo produtos ambientalmente adequados
no dia-a-dia da prefeitura (suspensão do uso de determinados tipos de madeira ou de produtos à base de amianto, publicação de manual
de madeiras alternativas, adesão ao papel reciclado, uso de restos de demolição como insumo para pavimentação etc). Cada órgão
público tem uma dotação orçamentária e as compras são feitas de forma descentralizada por meio de 120 unidades compradoras. Os
critérios ambientais estão sendo incorporados, aos poucos, pela Secretaria Municipal de Gestão, responsável pelas especificações técnicas
nas transações via Pregão, Dispensa de Licitação ou Carta-Convite.
Próximas etapas: Ampliar ainda mais as especificações de produtos com base em critérios ambientais (Compras Verdes), fortalecimento
institucional do programa, treinamento das unidades compradoras e dos fornecedores para adotarem critérios ecoeficientes.
Mais informações: www.prefeitura.sp.gov.br thaishorta@prefeitura.sp.gov.br (e-mail) svma@prefeitura.sp.gov.br (e-mail)

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